Cuidando de mim

Cuidando de Mim

Hoje acordei com estranha sensação de que algumas portas estavam rangendo, pensei, será que tem tanto tempo assim que não lubrifico essas dobradiças? Andando pelo corredores estritos, senti o assoalho que se movia a cada passada. Em um canto pouco claro, vi uma pequena teia de aranha formando seus primeiros acordes de uma estrutura geométrica que muito ainda cresceria. Em outro canto um cheirinho de mofo que se misturava ao aroma do café da manhã. Comecei a me indagar, há quanto tempo não faço uma limpeza geral, pesada, daquelas onde se tira tudo do lugar e vai limpando cantinho por cantinho? é nessas horas que acabamos encontrando lugares recheados de memória, fantasias, medos, angústias, mas também de felicidade, alegria, paz e muito, muito amor.

Sim, estou precisando cuidar melhor da minha casa, minha casa interior, lá onde se mistura sentimentos, emoções e desejos a um perfume profundo de jasmim combinado com cheiro de limpeza. Talvez jogar fora coisas que não mais sirvam, talvez reciclar novos sentimentos, quem saber doar pedaços de felicidade misturado com alegria? Sim, uma limpeza é sempre bem vinda.

Pus mãos à obra, lubrifiquei a dobradiças com óleo de minha porção espiritual, nas portas e janelas, que deixam entrar e sair tudo de ruim, mas de bom também. Limpei os móveis, varri todas as sujeitas, poeiras, até os cantinhos mais escondidos. Preguei os assoalhos soltos, até que ficassem bem firmes, sem fazer aquele barulho horrível que incomoda quem está a ponto de descansar. Removi com o devido cuidado as teias de aranha, preservando é claro seu habitante. Pintei as paredes mofadas, lavei, sequei e arrumei, ufa, um trabalhão.

Pronto, agora é só jogar as pernas para o ar, morder uma maçã bem suculenta e ouvir os pássaros cantando la fora,  sentindo um prazer imenso de dever cumprido misturado com um sentimento de felicidade e  realização.

Felicidade é isso cuidar da coisas pequenas, é perceber o prazer, no real momento em ele bate à porta vestido de casualidade e nem percebemos que ele chegou, chegando, sentou, tomou conta de tudo, escarrapachou e disse em tom autoritário: – Cheguei e daqui ninguém me tira. Como é abusada essa tal felicidade, mas tudo bem, já que esta aqui, sejamos felizes.

Mas, sem que eu esperasse, ela puxou a minha cadeira para perto de si e disse baixinho, como se fosse contar um segredo: – nunca se esqueça, de vez em quando, de fazer algumas limpezas e arrumações para que tudo continue funcionando perfeitamente. Ouvi aquela voz sabia e sussurrante e pensei, não é que essa senhora felicidade tem razão.

Se cuidem e sejam felizes.

Beijos

Rubens Santana

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