Acordei querendo falar com Deus.

Tem uma música do Gilberto Gil que diz: “Se eu quiser falar com Deus…” , “…Que ao findar, vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar…”
“Se”, indeterminação do sujeito. Não significa que quero, que tenho certeza, que sei o que estou fazendo, mas “Se”, se eu quiser falar com Deus, o que preciso fazer, o que tenho que fazer para falar com Ele.
E ele segue na música: – tenho que ficar a sós. Tenho que apagar a luz. Tenho que calar a voz. Tenho que encontrar a paz. Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios. Tenho que esquecer a data. Tenho que perder a conta. Tenho que ter mãos vazias. Ter a alma e o corpo nus.

Tenho que aceitar a dor. Tenho que comer o pão que o diabo amassou. Tenho que virar um cão. Tenho que lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho. Tenho que me ver tristonho. Tenho que me achar medonho.


E apesar de um mal tamanho. Alegrar meu coração.
Tenho que me aventurar. Tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar. Tenho que dizer adeus. Dar as costas, caminhar decidido, pela estrada que ao findar, vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar.


Ao findar vai dar em nada.
Se eu quiser ou não, não importa. Ao findar, vai dar em nada.


Não importa o que fiz, o que faco, ou o que farei, no fim, só resta o nada, só resta o vazio, só resta a nulidade, a casa vazia, os móveis encostado em um canto empoeirado, a vida que se extinguiu, que se esvaiu, que se findou, que se foi.


Como uma pequena e insignificante luz que vai se apagando, sumindo, se esquecendo de tudo, de todos, de todas as glórias e conquistas, tudo se vai, tudo se foi.


Qualquer que seja o caminho que eu escolher, qualquer solução que eu entender que seja a mais correta para falar com Deus, só existirá um inexorável e irremediável fim, tudo, absolutamente tudo, vai dar em nada.


Então, não importa onde eu queira chegar, o que eu queira fazer, o que vá fazer, porque todos sabemos que o fim é o mesmo, nada
Assim, é preciso que prestemos atenção na caminhada, essa sim é importante. Ela que moldará quem somos, nosso caráter, nosso eu, nossa essência, nossa natureza e também nossa implacável, monumental, estrondosa e poderosa insignificância.


O que somos, o que sou? De onde venho, para aonde vou? Nada importa, pois o fim vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada do que eu pensava ser.


Hoje, dia 13 de fevereiro de 2022, minha mãezinha se foi. Deu a Deus. Interessante o duplo sentido da frase:” Deu a Deus.” Ela se despediu. Se deu à Deus, se entregou.


Como sempre o tempo venceu. Ele,senhor de tudo, pediu sua mão em casamento. Casamento eterno, esse sim, pra sempre.


Em seu último suspiro, querendo talvez balbuciar alguma frase, tipo: “Cuide dos meninos, do Juá, da Dircinha, pessoas especiais. “Fala com os meus filhos que eu os amo.” Mas não havia mais força na voz, não foi possível saber o que queria dizer, o que queria falar. Mas isso não importa mais.


Ela se foi, sua luz se apagou, acabou, tudo voltou ao início, a esse grande ciclo de existência, onde nossa natureza paciente e gentilmente recolherá as cinzas de nossa existência.

Só digo a mim, a você, cuide-se agora, nesse momento, nesse dia, nesse minuto, nessa amanhã. Não espere o sonho chegar, não espere a felicidade, não aguarde que amanhã às coisas vão dar certo. Não, não faça isso. Viva agora, festeje agora, ame agora, fale agora, escute agora, sinta agora, se delicie agora, seja feliz agora, pois o amanhã é comprometo de nada, absurdamente nada.