Livro: A Tirania do Amor

Livro: A Tirania do Amor

Geralmenteo não sou muito afeito a livro de ficção, mas esse título me chamou a atenção, e, bem, basicamente, o protagonista, depois de decidir abdicar da vida sexual, passa boa parte do dia pensando e refletindo sobre seus relacionamentos, três em especial. Tereza, um amor antigo, Rachel, com quem ele tem um casamento fracassado que está em vias de acabar, e Débora, mulher com quem trabalha e flerta. Dependente dessas mulheres, constrói inúmeros monólogos interiores comparando-as e relembrando de momentos que passou com elas. Daí a questão, ele seria dependente desse amor porque esse amor, por si só, é tirano ao ponto de escraviza-lo? É por isso então que o personagem abdica da vida sexual, por que entendeu todo o processo? ou não entendeu?

Não gostei muito do modo como o autor constroi os diálogos, monólogos ou pensamentos, tem momentos bem confusos no desenvolvimento da narrativas, deixando um tanto quanto vago o caminho a ser trilhado pelo o autor. De toda forma é uma boa leitura mas de forma desprentenciosa.

A questão central do livro se inicia com a falência iminente da Price & Saving, empresa onde trabalha o o personagem Otávio Espinhosa, e a decisão, diante de um semáforo, logo no primeiro parágrafo do livro, de não ter mais relações sexuais são os motes que guiam o protagonista de A tirania do amor, novo romance de Cristóvão Tezza, que saiu recentemente pela Todavia.

O foco do romance se dá em torno da elite financeira do país em meio a um escândalo político. A empresa onde Otávio trabalha é suspeita de estar envolvida no processo. O ego do personagem principal está ferido de várias maneiras – possível demissão, fracasso na carreira acadêmica e fim quase que concreto de seu casamento.

Boa parte da trama se passa durante o almoço com sua filha Lucila que está pensando em fazer vestibular para letras. Enquanto almoçam e conversam sobre inúmeras coisas (um romance de Eça de Queirós e sua aplicabilidade na vida atual, a possível separação de Otávio e Rachel, entre outras coisas), o protagonista mergulha em fluxos de consciência que o levam refletir sobre sua vida conjugal, família, emprego e outros.

Otávio tem graves problemas de relacionamento com o filho Daniel, um jovem militante de esquerda e de pautas sociais que parece odiar o pai e não se conformar que seu dinheiro venha de uma classe burguesa alienada. O protagonista, que gostaria de jogar na cara do filho que ele deveria então não pedir mais dinheiro para nada, é impedido pela mulher e acusado de ser o culpado do mal relacionamento entre os dois.

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O romance do catarinense radicado em Curitiba é sofisticado, não há como negar. Há, o tempo todo, vozes que entram e saem construindo um mosaico extremamente elaborado de linguagens. Só um escritor do calibre de Cristóvão Tezza para fazer isso com tanta competência. Além disso, na mesma linha ou parágrafo, há flashbacks e flashforwards incessantes que desconcertam qualquer leitor mais desatento. O livro exige bastante do leitor, praticamente o chama para o embate.

Entretanto, as trinta e uma primeiras páginas do livro podem ser um desconvite à leitura. O estilo empregado no livro todo encontra, nas páginas iniciais, um movimento mais intenso ainda do que no resto do romance. Há momentos de enorme dificuldade em entender o que se passa, quem está falando e exatamente sobre o que se fala. A partir da página trinta e dois, o estilo permanece, mas em um tom mais moderado, que dá um ritmo extremamente interessante e rico ao livro.

Ao mesmo tempo atual e atemporal, o romance de Tezza coloca no mesmo local um personagem que está passando pela crise de meia idade, bem como retrata a crise econômica atual e os seus efeitos, de como as pessoas precisam se virar para conseguir sobreviver nesse sistema. Além disso, de maneira sutil, coloca discursos extremistas e cegos em um momento em que o ser humano é incapaz de olhar fora da própria bolha. A tirania do amor é então mais um exemplo do romance de urgência, tão necessário na contemporaneidade.

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Parte do Conteúdo extraído do Agrópole Revisitada