Livro: O Príncipe – Uma biografia não autorizada de Marcelo Odebrecht

Bem, comecei a ler o livro com certa desconfiança, já que as investigações da lava jato foram excessivamente e insistentemente exposta pela mídia como um todo, naquele período. Pensei que um livro com o tema teria pouco a acrescentar em termos de informações, esclarecimentos e novidades. Feliz engano, os jornalistas Marcelo Cabral e Regiane Oliveira conseguiram esmiuçar os bastidores das informações, apresentando pontos de vistas ainda não contados sobre grande parte do que ocorreu nas investigações da lava jato, da empresa que tornou-se sinônimo de corrupção no Brasil, bem como seus protagonistas de toda natureza, empresários, empreiteiros, políticos, juristas, investigadores, Presidentes e Ex-Presidentes e a sociedade como um todo.

Os autores conseguiram reunir informações e dados novos sobre um assunto, que eu pensava já ter visto, listo e assistido de tudo. Quando se obtém as informações somente através das mídias tradicionais, televisão, rádio, jornais, blogs e etc, é possível verificar que é construído um enredo padronizado dos acontecimentos, não sei se é a lógica jornalística que existe nessa construção, mas a bem da verdade a nossa opinião acaba sendo pautada por aquilo que assistirmos e lemos e que, conclui podendo ser uma opinião, por assim dizer, pré-concebida ou preconceituosa. Já que as mídias tendem sempre a entregar conteúdo ou informações que sejam, vamos dizer assim, vendível, mais palatável ao público, mais sensacionalista, e que, muitas vezes, pode não entregar toda a verdade sobre os fatos, ou mesmo informar segundo um viés ideológico ou tentar induzir a um pensamento ou a uma análise do interesse da própria mídia. É interessante perceber também que, a maioria dos meios de comunicação copiam e colam os conteúdos e acabam todos simplesmente replicando um ponto de vista da mídia prevalente. Não que os autores não possuam também um viés ideológico, mas, pelo menos na obra, parecem apresentar certa “imparcialidade dos fatos”, não sem exceções, kkkk é óbvio.

É claro que seria utópico pensar que, por ser um livro, ele simplesmente conte toda a verdade, isso também não existe, como jornalistas, eles também possuem pontos de vistas próprios sobre o assunto e tema, apesar de tentarem sempre se manterem neutros, até para poderem oferecer um conteúdo imparcial, que não defenda esse ou aquele interesse. É importante também entender, que o livro apresente certa logica cronológica, e você, na sua própria leitura, pode confrontar as informações, existe o tempo de raciocínio e de análise, você pode voltar nos capítulos ou nas partes do livro que você não entendeu ou achou que não ficou completamente esclarecido, Pode confrontar as informações com outros conteúdos, matérias, autores e etc, Ou seja, você tem maior chance de verificar a veracidade da informação sem a pressa da mídia televisiva e jornalística.

Os autores oferecem no livro uma leitura sóbria de grande parte dos acontecimentos que envolveram uma das maiores operações contra a corrupção que ocorreram no Brasil em muitos anos. Creio que nunca tinha havido, anteriormente no Brasil e em muitos países do mundo, uma investigação com a amplitude e com o envolvimento de tantos atores diferentes, empresas, empresários, lobistas, autoridades, políticos e etc, como ocorreu na conhecida lava-jato.

O livro é envolvente, com uma narrativa leve, surpreende por seu conteúdo claro e informações relevantes, informações de bastidores que só um jornalista dedicado, resiliente e competente poderia levar à cabo para tentar ser o mais fidedigno às informações, apresentando a veracidade dos depoimentos e das narrativas, a fim de evitar oferecer um ponto de vista e sim, o fato nu e cru para análise e crítica do leitor.

O livro traz em seus capítulos informações sobre a queda de Marcelo Odebrecht;

informações sobre a vida pessoa do Ex-CEO de uma das maiores empresas do Brasil; traz informações sobre a trajetória, métodos e modus operandi do sistema de corrupção que se instalou no Brasil nos últimos trinta anos; sobre como funcionava a Odebrecht; como funcionava a gestão, administração, e vamos dizer assim: “a seita TEO”, que fazia parte do poder cativante da gestão inovadora da empresa, com uma fidelização quase religiosa de seus funcionários e colaboradores a um padrão comportamental, profissional, ético e de princípio com qual todos estavam familiarizados e faziam questão de incluir em seus status quo pessoal, desde os mais altos diretores ao mais humilde terceirizado em uma das suas subsidiárias nos rincões do Brasil ou do mundo. Era uma cultura forte, pragmática e eficiente, essa era a Odebrecht apresentada por seu alto comando.

É um capítulo interessante do livro, quando os autores tratam do modelo de Gestão da Empresa, pois apresentam um Raio X, mesmo que superficial, do porquê da empresa ter crescido tanto, tão rápido, com tanta eficiência em tão pouco tempo, mesmo tendo um modelo de gestão completamente diferente das maioria das empresas no mundo naquele período e mesmo sendo uma empresa particularmente familiar.

No capítulo: Uma mentira repetida mil vezes, mostra como os funcionários, colaboradores e diretores tinham verdadeira devoção pela empresa e por seu líder, defendendo Marcelo Odebrecht e a Empresa nas redes sociais, nas mídias, encontros de amigos e familiares na certeza de que realmente havia uma cruzada dos meios de impressa, da justiça e dos políticos para destruir a empresa e todo legado de seus líderes. Nesse momento ainda Marcelo se dizia inocente, sendo categórico de que a empresa não havia corrompido e nem aceito corrupção em seu meio. Dessa forma os funcionários e colaboradores criam piamente na inocência tanto do Marcelo quanto da empresa e de seus gestores, isso graças a cultura organizacional implementada pela “TEO”, é uma espécie de filosofia de como viver a vida, como um manual de auto ajuda, Pedagogia da Presença, que faz referência ao trabalho de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, que parte da ideia de que: “como os seres humanos são incompletos, precisam criar relações de interdependências que promovam seu desenvolvimento”.

O capítulo cinco, A Teologia, discorre sobre a TEO, a metodologia gerencial implementada por Norberto Odebrecht o patriarca da empresa que criou e desenvolveu a metodologia por décadas até que ela se tornasse o que era nos últimos anos, uma fonte de inspiração, um manual de vida, um filosofia do bem viver ou mesmo um manual de autoajuda, além é claro, de ser um conjunto de princípios norteadores da gestão, do comportamento dos líderes e de seus liderados dentro e fora da empresa.

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O capítulo com o nome de A cruzada, trata da pessoal do senhor Juiz Sérgio Moro, jovem, bem-sucedido, referência em sua área de atuação, o Juiz liderava a maior operação judicial no país. Profissional reservado, é adorado por alguns e odiado por um número avassalador de pessoas. Teve sua rotina e vida pessoal completamente alterada, principalmente após o sucesso estrondoso da lava-jato, sendo necessário ser acompanhado com segurança a maior parte do tempo. Enquanto para uns ele é um herói, para outros, principalmente parte do magistrado brasileiro, adota condutas parciais, autoritárias e viola o direitos dos acusados, uma postura incompatível com a imparcialidade esperada de um juiz. Um dos primeiros juízes a utilizar a Delação Premiada, processo onde uma pessoa condenada obtém redução em sua pena ao aceitar a fazer depoimento e apresentar provas que levem a outros suspeitos, acabou conseguindo com grande sucesso que muitos delatores entregassem um esquema de corrupção nunca visto no Brasil.

O instituto da delação premiada possui seus méritos, mas acabou sendo usada, em meu modo de ver, apaixonadamente pelo juiz como uma forma de tentar extirpar, ou, no mínimo, minimizar os efeitos da corrupção no Brasil, é claro que, quando nos apaixonamos por algo ou alguém, a razão acaba perdendo espaço e terreno para as emoções e os interesses pessoais, mesmo que sejam com objetivos nobres a fim de fazer um bem maior, que era realmente prender a maioria possível dos criminosos de colarinho branco. Foi o caso de autorizar a publicização do diálogo em a Presidente Dilma à época com o Ex-Presidente Lula. Alguns entenderam que a Presidente objetivava blindar o Ex-Presidente. De toda forma como mandatária do Poder Executivo, ela não podia ser grampeada e muito menos ter seus diálogos expostos a todos como ocorreu, a questão foi a gota d’água para parte do Supremo e uma parte considerável da oposição. Penso que esse fato foi o que mais marcou a interferência e o modo parcial como o Juiz Sérgio Moro estava conduzindo a operação. Foi um tiro no pé. Esse é o problema quando misturamos amor, paixão e trabalho. Nesses casos a razoabilidade é sempre bem-vinda com no estrito cumprimento fiel aos mandos legais estabelecido na Constituição e em normas legais.

O reino, título do capítulo sete, descreve a trajetória da família Odebrecht desde 1856, quando um emigrante alemão desembarcou no sul do Brasil e desbravou o país trazendo desenvolvimento e trabalho. Trata dos familiares e de todas as atividades realizadas pelos mesmos nesses 150 anos.

Que País é Esse, trata sobre o Brasil e sobre as empresas, principalmente da construção civil que prestam serviços, principalmente, ao poder público. Demonstrando que o Brasil possui monopólios e oligopólios de empresas que prestam serviços ao poder executivo federal, onde os pequenos não têm vez. Algumas poucas empresas, somente as maiores e que apresentam interesse em realizar “negócios”, com o poder público possuem carta branca para participarem das grandes licitações. O restante tem que se contentar com pequenas obras em municípios menores ou nos rincões dos municípios ou do Brasil. Nesse sistema de interesses, onde o publico precisa fazer grandes obras e o privado precisa construir, os interesses difusos em ambos os lados acabam pautando a relação, situação conhecida como o Capitalismo de Laços, trata-se de um emaranhado de contatos, alianças e estratégias de apoio gravitando entorno de interesses políticos e econômicos. Capítulo riquíssimo para se entender como funciona a troca de favores, valores, interesses entre o poder público e a prestação de serviços de grandes obras pelo setor privado. É uma escola, claro, que o tema é pouco ortodoxo, mas não nos deixa de ensinar. Aprender a como não fazer, a como não ser. De toda forma, é um grande conhecimento, de como funciona as entranhas dos interesses públicos e privados quando objetivam ganhar dinheiro lesando o patrimônio do povo brasileiro.

Os dois últimos capítulos, A Tempestade e A Delação tratam do patamar em que chegou as investigações da lava-jato e sobre a delação de Marcelo Odebrecht ao Juiz Sérgio Moro. Nesses dois capítulos é possível perceber o ser humanos por trás do gestor competente da Odebrecht, se percebe nitidamente a diferença do, – “faça o que eu manda, mas não faça o que eu faço” – . Penso que o calcanhar de Aquiles de Marcelo foi uma união de competência, sucesso, autossuficiência, inteligência, misturado com prepotência e arrogância transvestida de humildade que levou o Príncipe a pedir misericórdia e fazer um termo de delação em que ele e quase uma centena de diretores da Odebrecht delatam o compadrio, corrupção, compra de proposições no Congresso Nacional, bem como de políticos. Marcelo parece que não tinha medo, ele se protegia em seu mecanismo de corrupção chamado Setor de Operações Estruturadas e ainda ironizava outras empresas por não serem tão organizadas quanto ele, caçoando e zombando da falta de profissionalismo dos mesmo. Bem, percebe-se que toda essa competência cobrou seu devido preço, quanto mais alto se sobe, mais alto é a queda, é claro que, mais inimigos se cria no meio do caminho.

Bem, a obra é um compendio do que não se deve fazer e de como não se deve comportar em relação à coisa pública. Gostei muito do livro, é daquelas obras que você começa a ler e não quer parar. Vai crescendo, te envolvendo, te prendendo da primeira à última página. Indico a leitura.

Parabéns aos autores pela excelente obra.

Um abraço a todos e sucesso.